sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

textos da noite de ontem


Esta noite procuro alguém que me convença suficientemente, a não querer recomeçar... Isso não se deve, como alego por muito tempo, a uma afirmativa sem fim entre a sinceridade de uma fala a encontrar e o artifício de uma escrita preocupada exclusivamente em erguer suas muralhas: é algo ligado à própria coisa escrita, tanto ao projeto da escrita como ao projeto da lembrança.
Não sei se não tenho nada a dizer, sei que não digo nada; não sei se o que teria a dizer não é dito por ser indizível (o indizível não está escondido na escrita, é aquilo que muito antes a desencadeou); sei que o que digo é branco, é neutro, é signo de uma vez por todas de um aniquilamento de uma vez por todas.
É isso o que eu digo, é isso o que escrevo e é somente isso o que se encontra nas palavras que traço e nas linhas que essas palavras desenham e nos brancos que o intervalo dessas linhas deixa aparecer: por mais que eu persiga meus lapsos ou passe duas horas matutando sobre qualquer coisa a escrever, ou busque em minhas frases, para evidentemente logo encontrá-las, as ressonâncias miúdas do Édipo ou da castração, sempre irei encontrar, em minha própria repetição, apenas o último reflexo de uma fala ausente na escrita, o escândalo do silêncio deles e do meu silêncio: não escrevo pra dizer que não direi nada, não escrevo para dizer que não tenho nada a dizer. Escrevo: escrevo porque vivo, porque sou uma no meio de multidões, sombra no meio das sombras, corpo junto de corpos; escrevo porque deixaram em mim uma marca indelével e o vestígio disso é a escrita: a lembrança de algo está morto na escrita; a escrita é a lembrança da morte e a afirmação de minha vida.

Na verdade, acho que preciso de um copo de cerveja de um boteco bem esfalfado...
Um brinde e boa noite.