terça-feira, 4 de março de 2008

  • Doravante as lembranças existem, fugazes ou tenazes, fúteis ou opressivas, mas nada as reúne.
    São como essa grafia não ligada, feita de letras isoladas incapazes de se soldarem entre si para formar uma palavra, que foi a minha até a idade de dezessete ou dezoito anos, ou como elementos dissociados, desconjuntados, cujos elementos esparsos não conseguem jamais ligar-se uns aos outros e com os quais, na época, entre digamos, meus onze ou quinze anos, cobri cadernos inteiros: personagens que nada prendia ao solo que supostamente os sustentava, navios cujas velas não se ligavam aos mastros, nem os mastros ao casco, máquinas de guerra, engenhos de morte, aeroplanos e veículos com mecanismos improváveis, com seus tubos de ferro desconectados, seus cabos interrompidos, suas rodas girando no vazio; as asas dos aviões se soltavam da fuselagem, as pernas separados dos torsos, as mãos incapazes de pegar fosse o que fosse.
    O que caracteriza essa época é antes de tudo sua ausência de referenciais: as lembranças são bocados de vida arrancados ao vazio. nada as ancora, nada as fixa. Quase nada as confirma. Nenhuma cronologia a não ser a que arbitrariamente reconstituí com o passar do tempo. Tempo passava. Havia estações. Não havia começo nem fim. Não havia mais passado, e durante muito tempo também não houve mais futuro; simplesmente aquilo durava. Estava ali. A coisa se passava num lugar que era longe, mas ninguém poderia ter dito exactamente longe de que lugar, (rs).

    Ah, como pensei em postar algo extremamente interessante! Hahaha até como foi meu sábado eu escrevi. Contando detalhes, sobre o lugar em que estive, as pessoas, as músicas, meu mal-estar, minha pressão baixa, o assalto; mas enfim vi que nada disso teria o menor sentido e que aliás, do que seria útil escrevê-los aqui? Hahaha, ai ai... Mas eu fiquei com uma frase de Raymond Queneau matutando minha cabeça: "essa bruma insensata que se agitam sombras, ─ então é esse meu futuro?"


    Baisers!

  • Via Láctea

    Quando tudo está perdido sempre existe uma caminho. Quando tudo está perdido sempre existe um luz. Mais não me diga isso. Hoje a tristeza não é passageira. Hoje fiquei com febre a tarde inteira. E quando chegar a noite. Cada estrela parecerá uma lágrima. Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida ou fingir estar sempre bem, ver a leveza das coisas com humor. Mais não me diga isso! É só hoje e isso passa... Só me deixe aqui quieto Isso passa. Amanhã é outro dia não é? Eu nem sei por quê me sinto assim vem de repente um anjo triste perto de mim. E essa febre que não passa. E meu sorriso sem graça. Não me dê atenção. Mais obrigado por pensar em mim. Quando tudo está perdido sempre existe uma luz. Quando tudo está perdido sempre existe um caminho. Quando tudo está perdido eu me sinto tão sozinho. Quando tudo está perdido não quero mais ser quem sou. Mais não me diga isso! Não me dê atenção! E obrigado por pensar em mim...

R.R./L.U.